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Doutor em teoria literária pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e ensaísta, foi presidente da Funarte (Fundação Nacional de Artes) de 2015 até o impeachment de Dilma Rousseff (PT). Autor, entre outros livros, de "A Vítima Tem Sempre Razão? Lutas Identitárias e o Novo Espaço Público Brasileiro"
[RESUMO] Ensaísta argumenta que a violência política no Brasil, que alcança um padrão inédito com a retórica agressiva, a demonização da oposição e os ataques ao sistema eleitoral de Bolsonaro e seus apoiadores, tem raízes no recalcamento de conflitos sociais, em representações distorcidas de adversários políticos e nos mecanismos narcísicos de redes sociais.
A frase de Pedro Aleixo, vice-presidente de Costa e Silva, diante da iminência da decretação do AI-5, é uma das mais repisadas do anedotário institucional brasileiro. Não o preocupava, ele observou, o que os generais fariam com aquelas medidas de suspensão de direitos, mas o que, autorizado por elas, faria o guarda da esquina. Aleixo, como sabemos, estava errado apenas no escopo de seus receios.
A novidade agora é esta: no governo de Jair Bolsonaro (PL), embora garantias individuais ainda estejam formalmente mantidas, não é mais preciso ser guarda para ser o guarda da esquina.
A combinação de políticas públicas pró-armamento da população com retórica violenta, masculinidade troglodita, demonização da oposição, recusa à autocontenção em todas as suas formas e desconfiança das urnas forma um caldo de violência latente que já começou a entornar mesmo antes de começar oficialmente o período eleitoral.
Bolsonaro e sua militância levam o problema da violência política a outro patamar. Ponto. As causas que a vêm produzindo, no entanto, são inúmeras, bem como são inúmeros os seus responsáveis, em um rol que inclui também agentes da oposição. É impossível ser exaustivo, mas vou identificar aqui alguns dos fatores que considero principais.
Da perspectiva institucional, o mais persistente problema de fundo é o que Marcos Nobre tem chamado de pemedebismo: o recalcamento sistemático dos antagonismos reais da sociedade brasileira, que são dissolvidos no interior de supercoalizões legislativas em que boa parte da oposição, ao ser incorporada ao governo, bloqueia transformações estruturais e impede que elas sejam até mesmo debatidas publicamente.
Junho de 2013 terá sido, segundo interpretação de Nobre, o momento de retorno do recalcado, em grande escala, pois ele retorna diariamente sob forma de violência urbana desorganizada —e rural nem tão desorganizada.
Como, mesmo diante de tal passagem ao ato, o sistema político se recusou a elaborar os conflitos, a energia antissistema de junho convergiu para a eleição de um candidato antissistema. Bolsonaro nunca deixou de atacar as instituições, sem projeto de reforma ou refundação.
O que vigora é, sobretudo, a afirmação de um princípio de liberdade que se apresenta como recusa a qualquer limitação de gozo e poder. A violência é sempre uma consequência provável. No limite, portanto, é o preço que estamos pagando por instituições que falharam em tratar nossos conflitos sociais.
Essa falha, e aqui a hipótese já é de minha responsabilidade, acabou fazendo com que passássemos do recalcamento dos antagonismos à sua explicitação entretanto falsificada, sem conhecermos o que seria um estágio esclarecido do debate. Entre junho e seus destinos possíveis, havia dois fatores decisivos: a influência de Olavo de Carvalho nas novas direitas e o novo espaço público centrado nas redes sociais.
O ornitorrinco da Virgínia —metade astrólogo, metade filósofo; metade lúcido, metade paranoico— se tornou o intelectual público mais influente das últimas décadas e produziu uma mentalidade ultraconservadora, profundamente marcada por uma interpretação distorcida da realidade ideológica brasileira.
No mapa astral olavista, quase todos os planetas estão alinhados à Marte: são vermelhos e prontos para a guerra. Na vida real, o país vinha sendo governado por um PSDB então meio liberal, meio de esquerda e, em seguida, por um PT também meio liberal e um pouco mais de esquerda, mas não tanto assim.
Essas caricaturas cobram um preço. Ninguém gosta de ser representado distorcidamente. A esquerda, registre-se, fez e segue fazendo a mesmíssima coisa: joga liberais democratas, conservadores moderados e até, às vezes, liberais de esquerda dentro de um mesmo saco rotulado neoliberal, quando não fascista. O jogo das “misrepresentations” (deturpações) é um jogo de retroalimentação. Cada lado se sente ofendido e representa o outro de forma mais e mais caricata.
Nesse processo, a direita empurra para a trincheira posições de centro-esquerda que, de outro modo, poderiam afirmar alguns valores da direita sem deixarem de ser de esquerda; do mesmo modo, a esquerda empurra para o apoio à extrema direita posições que, não fossem tão atacadas, poderiam ser de conservadores pedindo apenas “devagar com a louça” ou de economistas ortodoxos flexíveis a investimentos públicos e uma reforma tributária progressiva.
O ressentimento é um dos principais afetos na política: o fascismo é real, mas é também uma profecia autocumprida.
A emergência das redes sociais propicia esse jogo. Seus famigerados algoritmos e, na verdade, todo o seu mecanismo de reconhecimento, estimulam a formação de lógicas de grupo. Todos conhecemos os benefícios do pertencimento a um laço identificatório coletivo qualquer: é doce falar e ouvir as mesmas coisas, ter nossa autoimagem confirmada o tempo todo, usar alguém de bode expiatório, de quando em vez, para reforçar os laços do grupo. É gostoso, mas o custo social é alto.
Ficamos viciados nessas recompensas e sacrificamos a investigação honesta da realidade, feita de evidências e choques de argumentos, em prol da manutenção da identidade grupal. O narcisismo triunfa.
Pensar, entretanto, é um ato antinarcísico: exige a sustentação de uma abertura cognitiva para o abandono de ideias e a assimilação de outras. Disso depende o bom funcionamento do debate público. Sua função é transformar as posições. Do contrário, não temos debate, mas grupos entrincheirados, de saída, inflexíveis, caricaturando a realidade em prol de ideologias. O outro é um adversário fixo a ser derrotado. A violência fermenta aí também.
Os fatores, os processos e os agentes produtores de certo clima difuso de anomia são inúmeros. É oportuno relembrar o que eu mesmo disse em entrevista recente a esta Folha. Nos últimos anos, os principais agentes políticos do país agiram da mesma forma, sem se dar conta. Todos partiram de diagnósticos corretos de falhas institucionais e sociais e decidiram sacrificar a tentativa de construção de referências comuns, sólidas e estáveis, em prol de fazer justiça solapando o Estado de Direito.
O PT, partindo da premissa marxista, em boa medida correta, de que não existe democracia neutra, mas democracia da classe no poder, decidiu corromper as regras do jogo eleitoral democrático para poder se manter no poder e realizar seu projeto de transformação social.
A Lava Jato, partindo da premissa correta de que o sistema político era blindado, decidiu violar as regras do direito para fazer justiça. As novas direitas, partindo do fato real de que houve corrupção por parte do PT, decidiram embarcar em um processo de impeachment cercado de ilegitimidade por todos os lados.
Mesmo os chamados movimentos identitários, partindo da premissa correta de que vivemos em uma sociedade racista e misógina, não hesitaram em confundir denúncias com sentenças, suspender o direito ao contraditório, recusar que a justiça seria o foro mais adequado para a resolução de problemas, anular, em suma, o que seria um “devido processo moral”.
Desse modo, cada grupo passou a operar com dois pesos e duas medidas: um para os seus, outro para os adversários. Isso produz anomia, e anomia é a antessala da violência.
O Brasil é um país violento desde a sua origem. Nunca deixou de ser. A sensação, entretanto, é a de que estamos perdendo algumas das barreiras que impediam que essa violência entrasse em metástase e ocupasse todas as dimensões da experiência social.
As instituições, sob Bolsonaro, autorizam e até estimulam a violência, por baixo da bandeira da liberdade e da autodefesa. A linguagem da política se tornou deformante, ofensiva, redutora, raivosa.
No centro, digital, do novo espaço público, prevalecem as lógicas de grupo e seus mecanismos de entrincheiramento. Perdemos as referências comuns que nos permitiam reconhecer uns aos outros como membros de uma mesma comunidade: da cultura popular ao pacto democrático pós-1988, todo solo comum foi se abrindo sob nossos pés.
Até na vida privada, a violência hoje é mais presente. A ênfase absoluta em uma performance de moralidade pública, que angarie reconhecimento nas redes, é praticada não apenas em detrimento de uma moral privada virtuosa, mas em franca oposição a ela.
À direita e à esquerda, há cristãos e justiceiros sociais, que são praticantes contumazes de grandes e pequenas crueldades no trato com o outro. Uns e outros deveriam tornar-se adeptos do que Gilberto Gil chamou recentemente de bondade radical.
Bondade radical pode e deve vir acompanhada de explicitação de conflitos. Desativar lógicas de grupo, para ativar o cumprimento da função do debate público; parar de caricaturar os outros e de retroalimentar falsificações; suspender o juízo quando não dispuser de evidências; procurar estabelecer princípios, em vez de se permitir usar dois pesos e duas medidas; afirmar o decoro institucional e a responsabilidade pela linguagem como instrumentos de autocontenção; defender a universalização de direitos como único sentido capaz de produzir uma democracia sustentável.
Essas são algumas medidas que podem esfriar o magma de ódio latente que bafejará as nossas nucas nos meses por vir.
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