Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative – Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de “Pequenos Contos Para Começar o Dia” (2012), “O que Aprendi Sendo Xingado na Internet” (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.
Colunista do UOL
26/11/2022 10h47
Enquanto o golaço de Richarlison sobre a Sérvia e a lesão de Neymar monopolizavam o noticiário nesta sexta (25), um conjunto de operações das polícias militar e civil na Região Metropolitana do Rio deixou, pelo menos, 14 mortos. No Morro do Juramento, foram seis; no Complexo da Maré, outros cinco.
Na Maré, Renan Lemos, de 24 anos, teve que ser removido por parentes num carrinho de carga sem a ajuda do poder público, mas não resistiu. A família afirma que ele era entregador e motorista de aplicativo e foi morto por engano, deixando duas filhas pequenas.
Moradores revoltados com a truculência da operação protestaram fechando pistas da Avenida Brasil, da Linha Vermelha, entre outras vias, jogando pedras em policiais e ateando fogo em objetos. O Batalhão de Choque respondeu com balas de borracha e bombas.
Em 13 comunidades pobres do Rio, o som de cornetas e vuvuzelas foram substituídas por tiros de fuzil e as imagens das bandeirinhas e da decoração para celebrar a Copa contrastou com o vermelho do sangue.
Este texto não é para fomentar a culpa em ninguém que está se divertindo com a Copa do Mundo. Muito menos para defender que agentes de segurança cruzem os braços porque estamos em um momento festivo. Mas é bizarro que um conjunto de operações violentas sejam realizadas exatamente no momento em que a atenção da maioria da população está voltada à vitória do Brasil no futebol.
A “coincidência” dificultou que a opinião pública desse ao caso a importância merecida e que o governo do Rio e as polícias fossem devidamente questionados pelas mortes.
Por conta das operações, 54 escolas no Juramento, na Maré e em Senador Camará foram fechadas, além de postos de saúde. A justificativa para a ação era o combate a quadrilhas de roubo de carga e de carros e de tráfico de drogas. A polícia militar disse que as mortes foram em confronto e que todos eram “suspeitos”.
Isso ecoa declarações da polícia ocorridas em outros momentos trágicos. Por exemplo, em 6 de maio de 2021, ocorreu a operação policial campeã de letalidade no Rio. No total, 27 moradores e um policial civil foram mortos em uma ação violenta que ficou conhecida como a Chacina do Jacarezinho.
Na época, o delegado Felipe Curi, do Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE), chegou a afirmar em coletiva à imprensa: “Não tem nenhum suspeito aqui. A gente tem criminoso, homicida e traficante” – atropelando a presunção de inocência.
Após a morte de um policial militar por criminosos, o Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo (RJ), foi palco de uma operação que começou no dia 19 de novembro do ano passado e terminou na morte de nove pessoas. Os corpos foram retirados de um manguezal pelos próprios moradores.
Em 11 de fevereiro deste ano, oito dias após o Supremo Tribunal Federal obrigar o governo do Rio de Janeiro a adotar medidas para reduzir a letalidade policial em comunidades pobres em até 90 dias, oito pessoas foram mortas em uma operação da Polícia Militar em conjunto com a Polícia Rodoviária Federal na Vila Cruzeiro. Mandou, dessa forma, um recado ao STF: aqui, no Rio, você não apita nada.
Três meses depois, no dia 24 de maio, uma ação do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar em conjunto com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) terminou com 24 mortos, novamente na Vila Cruzeiro – a segunda maior chacina com envolvimento de policiais da história do Rio. Entre as vítimas, a moradora Gabrielle da Cunha, de 41 anos, atingida por um disparo durante a operação.
Neste 12 de julho, mais seis pessoas morreram durante ação policial em Manguinhos, na Zona Norte do Rio. Em nota sobre o caso, a Anistia Internacional afirmou que “a ação de segurança pública implementada e praticada pelo governo do estado do Rio de Janeiro tem norteado uma política de eliminação de determinada parcela da população negra, pobre e moradora de favelas e periferias”.
E em 21 de julho, uma operação policial no Complexo do Alemão, zona norte do Rio, registrou, ao menos, 18 mortos, segundo a Polícia Militar. Entre as vítimas reconhecidas, um agente de segurança e Letícia Salles – morta após seu carro ser atingido por policiais, de acordo com familiares.
A função de forças de segurança deveria ser investigar, prender e levar à Justiça as pessoas sobre as quais pesarem evidências de envolvimento com crimes. E ao ignorar suas funções, batem de frente com a Constituição de 1988 e qualquer um que seja responsável por sua efetivação.
A sequência de mortes envolvimento operações policiais no Estado do Rio de Janeiro revela que apesar de seu antecessor, Wilson Witzel, ter prometido, em novembro de 2018, “mirar na cabecinha… e fogo!”, é o governador reeleito Cláudio Castro (PL), correligionário do presidente da República, que tem apertado mais o gatilho.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
Leonardo Sakamoto
Leonardo Sakamoto
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Hélen Freitas
Leonardo Sakamoto
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